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17 de novembro de 2011

Estranha compaixão



Era para ser uma tarde sem compromisso e nem conseqüências, mas na entrada de uma loja saltou do quiosque a sorridente vendedora de cartão de crédito. De modo muito educado, iniciou sua primeira abordagem fazendo a oferta. 


Ao ser informada de que não havia interesse, a vendedora não se deu por vencida e começou a peleia, acompanhando meus passos que já não avançavam mais pela loja, envolvidos pela multiplicação dos apelos da funcionária. 


De nada adiantava driblar com negativas, pois a moça estava firmemente decidida a não entregar seus pontos. E, o pior, os repetidos argumentos surtiram efeitos alguns metros adiante, mesmo que nenhum deles me convencesse ou alterasse meu ponto de vista.  


Eu não precisava e nem desejava o tal cartão de crédito, mas a moça precisava desesperadamente me vender o produto. Comecei a sentir que por trás do oferecimento havia certo desespero, isso me fez perceber que estava perdida e teria que ceder.  




Ela tinha metas a vencer para não perder seu emprego, veio em minha cabeça como uma legenda da cena, enquanto a moça repetia pela décima vez que eu não pagaria nada, entre vírgulas de novos motivos para aceitar a proposta que enfatizava ser irrecusável.


Meu lado anjo me cutucou: “que te custa? Ajuda a criatura. Ela precisa trabalhar, disto depende seu salário”. E o outro lado, o racional, frio e calculista: “não tens nada a ver com isto, não queres o cartão. Diz para ela não, tantas vezes quanto seja necessário, te despacha da situação e estará tudo resolvido”.  


Ah! Se fosse assim fácil, mas eu não consigo me desvencilhar. Estou vencida. Baixo a guarda, me resigno. Lá vou eu aceitar mais um cartão que não desejo e nem pretendo usar. Fui possuída pelo sentimento que se traduz como compaixão. 


Ao compreender o estado emocional da pessoa, senti seu sentimento, seu sofrimento no trabalho, sua necessidade de alcançar a meta exigida para manter seu emprego. Isso me trouxe a necessidade de aliviar seu sofrimento da única forma possível: ajudando-a, aceitando a proposta que não é de meu interesse. Aceitei para ajudar, aceitei porque era a única forma de minorar seu sofrimento.



Essa compaixão estranha eu sinto por alguns tipos de trabalho, principalmente pelos serviços que me parecem penosos ou degradantes, que expõem a situações humilhantes ou profundamente desagradáveis. 


Tenho o mesmo sentimento por todas as pessoas que precisam ganhar o pão de cada dia oferecendo coisas a quem não está interessado. 


Esse é o motivo pelo qual aceito todos os papéis de propaganda distribuídos pelas ruas: dos anúncios de venda de imóveis, aos de empréstimos e de serviços de cartomantes.  Pego toda a papelada e depois descarto em local adequado. 


Compadeço-me também dos serviços que expõe a pessoa ao ridículo, como o das pessoas que ficam estaqueadas na porta de lojas, bradando ofertas aos passantes desinteressados. 


Despertam-me o mesmo sentimento os que precisam viver trabalhando em serviços de telemarketing, dando centenas de telefonemas, dizendo as mesmas coisas, ouvindo negativas e desaforos. 


Esses trabalhos são dignos, honestos, porém mais penosos do que muitos trabalhos fisicamente pesados, pois envolvem tarefas desagradáveis, enfadonhas.

Trato com especial consideração e respeito esses trabalhadores, mas coloco rédeas nessa estranha compaixão, para salvação de minhas finanças. 



Crônica de Sílvia Lúcia 
- Acesse:www.silvialcoliveira.blogspot.com
E-mail:silvialucia.oliveira@gmail.com

29 de agosto de 2011

Nossos fantasmas!



Ao longo da vida nos deparamos com muitos ‘fantasmas’. 

Alguns colecionamos por anos a fio até que uma terapia apague suas impressões. 


Outros, vão surgindo em nosso dia a dia e preenchem as páginas de nossa agenda com aquilo que anotamos e não damos conta de fazer. 

Um comum a muita gente é o fantasma do salário que não se estica feito elástico até o final do mês. 

Outro é aquele que ganha corpo pelo medo de ir a um médico e ele pedir uma porção de exames, e que depois de ser abatido cederá seu lugar a outro emergido pelo receio de um resultado inesperado.


Não devemos nos esquecer também de listar aquele velho fantasminha infantil que nos assombrava com o medo do dentista e sua maquininha de dor estridente...

Há ainda os fantasmas da corrupção, da roubalheira do dinheiro público e dos maus políticos. 

Da decepção do voto dado pra quem não está fazendo por merecê-lo. 

Do medo da violência na rua, no banco, no trânsito... 


O fantasma da competitividade que dá ímpetos a um colega de arrancar o fígado do outro no seu ambiente de trabalho.

E, ultimamente, do fantasma do tempo. Não o tempo que nos deixa mais velhos a cada dia e do qual não podemos, e não queremos fugir; caso contrário, precisaríamos morrer. 


Falo desse tempo-clima maluco que faz a temperatura despencar mais de 10 graus em menos de 24h

Que nos palhaços urbanos vestidos para verão e inverno, com filtro solar e guarda-chuva. 


Outro dia, uma moça de São Paulo comentou que saía de casa às 6h da manhã com roupa de inverno por causa do frio. Mas na mochila carregava vestuário de meia estação, de verão e até biquíni, porque no final do dia poderia estar muito quente e assim ela poderia dar uma passada no clube antes de retornar à sua casa. 

Afora esse fantasma doido e trapaceiro, ela também tinha outros, como o do trânsito emperrado e o de enfrentar um temporal na rua com direito a enxurradas e tragédias.

Ah, são muitos os fantasmas cotidianos, alguns extravagantes, excêntricos, idiotas, absurdos! A parte boa disso é que com o tempo vamos ganhando tarimba para lidar e abater alguns. 


Os mais resistentes e encouraçados viram verdadeiros monstros com poder de fogo para roubar o brilho, o sorriso, a leveza e a despreocupação dos semblantes mutando-os em caricaturas carrancudas... 

Por fim, meus mais recentes fantasmas são crias desse inverno
chuvoso e frio.

Eles me fazem lembrar uma infância povoada por roupas molhadas estendidas no varal do pátio por vários dias, que brincavam com meu imaginário ao se moverem ao comando do ventoOu quando bruxuleavam na sombra das luzes à noite.





Crônica de Rosane Leiria Ávila
- rosaneleiria@gmail.com


21 de julho de 2011

Espadachins, canastrões e acelerados

Crônica Gabriel Colombo

Talvez você tenha em mãos tudo aquilo para dar certo.


Talvez você olhe com calma e veja que, para atrapalhar, carrega todo o tipo de contradição.


Quer fazer da vida um sucesso? 


Calma aí: juntar à intelectualidade, criatividade, possibilidades e até o físico, não é para qualquer um.


Mas, por que não tentar?




É uma busca que mobiliza o ser humano, sendo que aquela outra, a que se chama amor, talvez nos confirme muito mais como seres humanos... 


Por esses dias li que ninguém vive só para si, vive-se para um outro, enfim...


Muitos desistem logo no início. Alguns, no meio do caminho. Outros, os corajosos, seguem em frente. Parabéns pra eles.




Há de se acumular muitas experiências, para o rapaz ou a garota que você é ter mais exercício, cautela e mão na massa.


O resultado que se pretende é a produção de uma vida bela e independente. Eficiente. Relevante. Num ambiente adequado... Ou estaria eu errado?


Porém, nós humanos estamos cada vez mais competitivos. Por natureza? Já nem sei mais se isso é saudável ou nos afasta. Mas, depois une os melhores.




Para uns, a vida parece um campeonato de esgrima, onde o praticante é um malabarista que se equilibra entre as belezas dos movimentos (para se dar melhor e seguir adiante) e a eficiência dos golpes (para afastar as pessoas que ora ou outra são obstáculos no seu caminho).



Para outros, é um eterno jogo de baralho: mais exatamente uma canastra, na qual tentam acumular o máximo de cartas, como se fossem suas conquistas pessoais ou seus carros, imóveis e mulheres. 


Ou, ainda, exibindo uma carta de valor maior que a outra (um rei e depois um ás) para mostrarem como são capazes de agregar vitórias de peso e vidas de sucesso e ascensão. 


Ah! E nunca baixam o jogo, sempre mantêm o que compraram do baralho em suas mãos, pois não estão a fim de botar as cartas na mesa.




E a maioria, como tem que acompanhar o rápido rítmo dos tempos, é bem prática. Vive numa longa corrida de Fórmula 1. Você já reparou que quem pilota o melhor motor, simplesmente, chega na frente? 




Então, é bom pisar no acelerador, uma vez que você não quer chegar atrás de ninguém.


Ou quer?!


Muitas são as disputas. Alguns são os vencedores. E, nessa de a vida ser uma competição, eu penso que há lugar para todos.


Ilusão a minha... Voltando atrás no que eu disse, nem sempre há.


Pressa, então? 


Tudo bem, vamos embora!


Mas eu aviso: se você não fizer as coisas como se fosse tirar o pai da forca, as fará melhor. Ah, sei...! Estás louco pra ires à luta? Ok, mas tempos de guerra pedem uma pausa.


Até para se recompor. Não é mesmo?


9 de julho de 2011

Gabriel Colombo: "Dai-nos" o jeans de cada dia



Eu achava fila uma das coisas mais democráticas do mundo. Não é. Então, o que é? A calça jeans! 


Pode ser em Nova Iorque, Tóquio, São Paulo, Londres ou Paris, ela está em tudo e em todos. Normalmente, fico em dúvida entre o número 38 ou 36. E sempre tem a opinião da vendedora: “É bom comprar apertadinha, porque depois ela cede”.


Aí vem um problema, que me incomoda há tempos: ou ela cede demais ou tenho que fazer "reza forte" para ela dar de si, pois continua apertada. E nesse combate, alguém tem que ceder. Recuso-me a comprar a 42.


Cedo eu, claro. Não tenho como lutar contra tal vestimenta. Ela é mais velha do que eu e devo respeitá-la. Foi idealizada por Levi Strauss há mais de século, na tentativa de criar roupas resistentes para os mineradores de pedreiras nos Estados Unidos. 


Por que ela existe até hoje? 


Porque os mineradores de 2011 continuam precisando de tal uniforme.


Interessante, tendo em vista que a autora do livro poderia ter escrito uma advertência anti-jeans. Do tipo: “Evite, é mundano”. Daí, aprendi uns truques, que fazem a gente até rir, mas têm, em seus fundamentos, bom senso. 


Qualidade com a qual todos já deveriam nascer daí só precisaria de espelho pra tirar a prova dos nove!... 


Para magro(a), todo tipo fica bem.Para gordo(a), quanto mais escuro melhor.


Para alto(a), use com sapatos baixos (pensei: óbvio). Baixinha(o) deve eleger o cós curto. Os de bumbum avantajado, modelos folgados. E para os de bumbum pequeno, enfeites, dando a sensação de volume. Ah, se você for da tribo do skate, quanto mais largadona, melhor.


Acredito que o jeans rasgado começou com o movimento punk, embalado pela estilista inglesa Vivienne Westwood, nos tempos em que imperavam a atitude radicalista e de protesto ao status quo (ao pré-estabelecido). 


Hoje, a Vogue France diz que o modelo rasgado é de bom senso e arrojado. E moda, a França, dita. É expert no assunto. O mundo que vá atrás.


Então, comprei o meu modelo "Guerra dos Farrapos". 


Precisava de uns ajustes. Quando cheguei à (antiga) costureira para fazer a reforminha, espantada ela disse: “Quer dizer, então, que você pagou por uma calça italiana rasgada? Que pecado!”.


Verdadeira mutação. 


O jeans lhe confere conforto e praticidade, a ponto de você gozar da felicidade de estar bem vestido, se escolher o seu com sabedoria. 


Virou objeto de valor pela intensidade com a qual, várias marcas, da baratinha à cara, o fornecem. O elemento básico para vestir bem a calça é só um: você. 


Ela iguala homens e mulheres nesse quesito do guarda-roupa. E tem mais possibilidades para perdurá-la para sempre entre nós, do que se eclipsar. Sem "sombra" de dúvida” (com o perdão do trocadilho).


Por: Gabriel Colombo

2 de julho de 2011

Tic-tac faz o silêncio

Crônica: Gabriel Colombo

É quase noite. Já passou das sete e decidi não me suicidar. 

Para mim, já está bem tarde. Te esperei toda uma semana. E no dia prometido, recebo teu atraso.

Se eu telefono tu não atendes. Se deixo recado, não recebo retorno. 


O que se faz enquanto se espera alguém? Nada, é a primeira ideia. 

A segunda? É sair por aí. Revoltado, esparramado, doido varrido. 


Mas, sabe que nesta espera eu fiz diferente? 

Decidi lacrar as janelas. Olhei para as chaves. Me bateu uma dúvida daquelas; se ficava ou se ia. Recostei-me no meu canto. Ando com medo de corredores escuros. Odeio sala vazia. Pior que fila de banco. 


Fiz uma pausa. Escrevi um poema. Aparei um pouco mais a barba. Tomei outro banho. E bem ridículo, acreditando no clichê, me convenci que “nunca é tarde demais”. 

Seja como for, eu rezo pelo tempo que desapareceremos juntos em algum lugar. 


E tu jogarás ao longe esse meu relógio, que faz um tic-tac mostrando o quanto as horas não passam. 

Podes me levar por terrenos baldios, mas eu gostaria que fosse hoje. Se quiseres me levar de olhos vendados, pensarei para amanhã. Vou considerar tua música ao teu piano. Talvez eu vá... Aflito. Trêmulo. Feliz. 


Acaso eu vá seguir sem ti, me deseja coragem. De tanta inquietude pela tua novidade, fiquei entediado. 

Embaralhando ruídos. Lixando lixa, pintando os pincéis, afiando facas. 

Decidi desarrumar tudo, quebrei duas taças. 

Fui me deitar. Hoje tu não vens, eu sei. 

A paciência é a virtude das virtudes. 

Enquanto eu te invento, tu existes.

19 de junho de 2011

Homens




Gostava da dureza de suas vozes, faces, músculos, mãos e outros membros. Vez ou outra, via um exemplar perfeito da espécie a expressar toda a sua imperfeição. Eles levavam algumas vantagens sobre nós, na força para lidar com coisas brutas, feito tampas, tapas e trincos. 

Eram menos perdidos que nós, mas nem por isso deixavam de se perder entre nossos cabelos, colos e pernas - entrelaçados...

Quase sempre queriam estar por cima. 


Ocupar o topo, encabeçar a lista, mas só vinham quando deixávamos de chamá-los, e, quando exaustas e já roucas de tanto apelar em vão, deixávamos. 

E então, eles vinham... vinham afoitos, vinham à espreita, vinham em bando, vinham e vinham, mas no fim do caminho nunca chegavam. 

Não quero dizer com isso que, de alguma forma, perdiam-se. Nunca. Mas... Perdiam-nos. Sempre! 

Ou éramos nós que, ao seguir a natureza, andávamos em círculos, ora a enrolar, ora a desvencilhar, e assim acabávamos por deles nos perder. 


Afinal, são eles a ocupar o centro do mundo. 

Nós, apenas orbitamos ao redor, rodeamos... ou assim o fazemos pensar. "Nossa persuasão pode construir uma nação" [como diz na música "Run The World (Girls), ou Mandam no Mundo (Garotas)", de Beyoncé].

A verdade? Ah, a verdade é uma incógnita e assim deve permanecer. O segredo faz parte de um jogo que, até onde me cabe aqui dizer, não é do interesse de nenhuma das partes interromper, ganhar ou perder.


"Mulheres: gostava das cores de suas roupas do jeito delas andarem da crueldade de certas caras. Vez por outra, via um rosto de beleza quase pura, total e completamente feminina. 

Elas levavam vantagem sobre a gente: planejavam melhor as coisas, eram mais organizadas. Enquanto os homens viam futebol, tomavam cerveja ou jogavam boliche, elas, as mulheres, pensavam na gente, concentradas, estudiosas, decididas: a nos aceitar, a nos descartar, a nos trocar, a nos matar ou simplesmente a nos abandonar. 

No fim das contas, pouco importava seja lá o que decidissem, a gente acabava mesmo na solidão e na loucura" - de Charles Bukowski - texto que inspirou esta crônica.

** Crônica de JU Blasina

18 de junho de 2011

Uma bobagem do tipo “Eu te Amo”



Crônica: Gabriel Colombo



Qual a melhor altura de se dizer eu te amo?



Outra pergunta: quem terá coragem de admitir primeiro?



Existem ocasiões nas quais todos sentimo-nos admirados: 



Quando alguém cuida de ti. 



Quando se está feliz. 



Quando o outro sabe te escutar. 



Quando pergunta como foi o teu dia. 



Lava tua louça. Limpa teu banheiro.




Também elogia tua roupa. E a tua opinião conta muito. 


Dirigir esta expressão não deveria ser um problema. 


Demonstra fraqueza? Ou demonstra sinceridade? 

É como os dois lados de uma moeda: pode depor contra ou a favor de ti.

Vai ser o teu Paraíso ou o teu Inferno. 





Quando se instala o Inferno, o outro ser amado estará a mil léguas distante de ti e te fará de marionete. Quando se tem a sorte de sentir Paraíso, a pessoa amada tende a entregar-se da mesma forma. Perdendo a ilusão que pisava em território estrangeiro ou em areia movediça.
Eu li que os acontecimentos mais ricos ocorrem antes que a gente se aperceba deles. E quando abrimos os olhos para o visível, há muito tempo atrás já estávamos aderentes ao invisível.



Naquela noite que tu me disseste ‘eu te amo’, fiquei paralisado. Pedi licença. Tomei um ar. Fiquei constrangido. Fui para o banheiro e te vi deitar na minha cama. Montei uma linha de fatos…





Lembrei do meu peito suado, do meu olhar tarado, dos meus lábios molhados. Entendi que eu fui o primeiro a falar através do meu corpo e dos meus olhos, esta expressão boba do tipo ‘eu te amo’.

E eu nem precisei te oferecer jantar romântico. E eu nem tive que rir das tuas piadas sem graça. Embora eu não tenha falado palavras abstratas, nem também fui muito exato, me entendeste muito bem...

Eu sei quando foi. Foi quando eu rasguei as cortinas, vesti o meu corpo de luz e de forma simples, caminhei até ti. E a minha sombra me esperava atrás de toda a tua luz.

Muito obrigado à minha dinda Eloisa Teixeira por transcrever essa crônica via celular Londres/Brasil num momento de muita emoção minha.

13 de junho de 2011

ENAMORE-SE


Para evitar doenças se tem por certo o rumo a ser seguido: ficar longe dos excessos e buscar uma vida equilibrada.  Mas para ter saúde o caminho parece mais amplo e a receita mais interessante. Uma dieta rica e colorida, aliada a exercícios físicos regulares e uma vida afetiva e social gratificante ajudam em muito. 

Em síntese, ser feliz parece ser a receita que leva à plena saúde e à longevidade. Para os solitários tristes e agoniados em geral a prescrição pode parecer impossível: a vida lhes pesa e oprime. Como se consegue ser feliz?

Pesquisas científicas, após seguirem rigoroso percurso pelos complexos meandros dos métodos, estão apontando o óbvio: a felicidade é essencial para a saúde e – a boa notícia – ela depende de uma condição interior.

São mais felizes as pessoas que se mantém enamoradas. Isso nada tem a ver com estar só ou acompanhado; com estar namorando, amando ou vivendo com alguém. Os namorados e os amantes estão felizes e permanecerão neste magnífico estado enquanto brilharem as ilusões do fascínio, os ardores da paixão. 

Enamorar-se de alguém é maravilhoso, mas muitas vezes resulta transitório e culmina com um final decepcionante. Por mais que uma paixão encante ou adoce, sua intensidade diminui e se transforma com o passar do tempo. O caminho do amor romântico parece um tortuoso percurso que culmina em apenas duas alternativas: ou morrer, quando se apaga a faiscante chama das ilusões do encantamento inicial, ou se transformar numa relação com novos significados. 

O enamoramento que leva à felicidade mais duradoura é algo amplo e transcendente. São felizes aqueles que se mantém enamorados pela vida, por cada dia, por cada momento. Esse estado de amor faz com que o corpo funcione bem, que o coração se mantenha firme, forte e que a mente visualize positivamente as diferentes situações do cotidiano. Esta atitude resulta num sentimento de bem estar sereno e profundo, condição capaz de levar o corpo a um estado de vigor e vitalidade.

Namorar é fundamental, sim, mas namorar a vida, acima de todas as demais paixões – pois elas passam, como tudo passa e sempre passará. Essa atitude de enamoramento definitiva, permanente e transformadora é revolucionária a nível pessoal. E, melhor de tudo, não depende de pessoa ou coisa alguma: jovens e velhos, ricos e pobres, solitários e bem acompanhados, todos – indiscriminadamente – podem ser felizes.   

Utopia? Mito?  Pois teste você mesmo: instaure na sua mente uma disposição positiva, se determine a ser feliz – independente das circunstâncias atuais. Enamore-se de sua existência. Teime, insista, não desista de namorar sua vida, de se encantar com cada dia, de se sentir feliz e observe os resultados após algum tempo.

Sílvia Lúcia

9 de agosto de 2010

O sumiço dos ouvintes


- Crônica da escritora Sílva Lúcia [clique e acesse seu blog]

Com nostálgica saudade, recordo os tempos do rádio, quando a TV ainda não existia e o universo do imaginário era povoado por vozes e sons. Eu ouvia o Repórter Esso, cuja voz se sobressaia aos chiados do rádio de válvulas.


Era pequena demais para entender o significado das noticias, mas me encantava com o aparelho – em madeira caprichosamente arqueada e com uma voz misteriosa saindo por entre a tela tramada de tecido e filetes metálicos.


O mesmo sentimento de doce nostalgia me envolve quando recordo a eletrola grande da sala de casa e os momentos em que, muito miúda, saboreava escutar as histórias infantis dos pequenos discos coloridos de vinil.


O som enriquecido de ruídos de fundo me levavam a uma viagem imaginária encantadora.

Aquela era uma época em que se dava ao cérebro o trabalho de imaginar, de criar as imagens e também o tempo necessário para refletir sobre as palavras e seus significados.


Éramos todos – crianças, jovens, adultos e idosos – ouvintes treinados: o entretenimento mais prazeroso nos entrava pelos ouvidos e fazia desta uma via importante de nossa sensibilidade.

E as pessoas conversavam, proseavam muito.

Com o advento da televisão, rompe-se a primazia do som e entramos na era da imagem, com efeitos muito diferentes e, em alguns aspectos, bastante adversos.


Enquanto para ouvir precisamos de atenção, sem a qual o som nem é captado, ver televisão exige apenas a presença de nossos corpos: diante do aparelho nos tornamos pateticamente hipnotizados por imagens e mensagens subliminares de todos os gêneros.

Não precisamos fazer nada, nem pensar.


O aparelho inaugurou a era da distração, que progressivamente invadiu todos os momentos da vida com cada vez maior número de aparatos de imagem.

Em qualquer situação, nossa atenção é seqüestrada por estímulos visuais, capturada de mil modos e grande é o esforço necessário para resistir a tantos apelos.

De ouvintes atentos que em maioria éramos, nos transformamos em falantes distraídos. Esse é o mundo dos falantes inclusive as máquinas.

Somos “atendidos” por gravações e dialogamos com terminais eletrônicos e falamos com códigos: disque 1 para isto, 2 para aquilo, 3 para aquilo outro; conversamos com números.


Os diálogos estão se tornando monólogos coletivos nos quais todos falam, falam, falam, sem que alguém se coloque na condição de ouvinte. Está cada vez mais difícil ouvir e ser ouvido.

Se nas situações pacíficas e harmoniosas, a falta de escuta é constante, nas cenas de conflito a possibilidade de alcançar entendimento por via do diálogo beira o impossível: ninguém quer ouvir a parte contrária. O importante é preservar a trincheira de seu ponto de vista.


A comunicação é feita no modelo bombardeio.

Cada um usa a munição que tem em mãos e, diante da bandeira branca da parte contrária, aproveita-se a brecha para recarregar as armas e achar um ponto vulnerável do interlocutor, tornado adversário.

Estão sumindo os ouvintes, acabaremos todos falando com as paredes.