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12 de março de 2010

Espírito de liderança e cabeça cheia de ideias!!!

Ela tem apenas 25 anos, carrega desde o berço o poder da oratória, um espírito cheio de liderança e como atual coordenadora de jornalismo da rádio e da TV da Universidade Federal do Rio Grande (Furg), cargo em que conquistou no final do ano passado, possui a obrigação de ter sempre uma posição, uma opinião formada sobre absolutamente tudo. Nada que seja sofrível para ela.

Bruno Kairalla

Por Bruno Zanini Kairalla
- Fotos-reportagem: Bruno Kairalla/Arquivo Pessoal
- Sugestões: bruno.kairalla@gmail.com
- Editora: Rosane Leiria Ávila

Crítica, energética, humorada e criativa, Sheron Barros Nicolette, não gosta de seguir as tendências que não lhe convencem, as regras expostas de forma básicas e certinhas e nem padrões tão pré-estabelecidos.

Pelo contrário. Com uma personalidade forte, contestadora e pra lá de estimulante, se possível sempre dá um jeito para empregar um toque pessoal seu em tudo e se algo lhe soa muito comum, então é hora dela logo tratar de questionar, rebater e transformar.

Arquivo Pessoal

Ela também ostenta com orgulho o fato e o dom de ser uma comunicadora que não só se aventura e passeia por diversas tribos, como também aprendeu a exprimir delas o que melhor possuem para oferecer. “Nunca fui de fazer média com ninguém e sempre tentei emitir minhas opiniões mais sinceras sobre os assuntos que são discutidos”, profere.

Gosta tanto de ser mulher, que define seu gênero como algo fantástico e maravilhoso. E também faz graça: “Sempre brinco que gostaria que todos meus filhos fossem homens, pois assim vou ser a única mulher da família”, diverte-se.

Sim, ela possui o sonho de ser mãe e filha única que é – por parte de pai tem outras duas irmãs que lamenta não ter tido uma convivência maior – ela garante que ainda quer ter muitos filhos. “Filha única já basta eu e não dá. Quero muitos filhos”, espera.

Das barreiras e adversidades sofridas no passado, ela comemora a conquista e liberdade da feminilidade como forma mais plena da referência de “ser mulher”.

Arquivo Pessoal

- Dificilmente uma mulher não é feminina. Só se ela não quer. Ser feminina é conseguir ver a beleza interior que emana em ti. É expressar toda a tua vontade, a tua liberdade no teu externo, no teu corpo, nas ações e na forma de como tu te coloca ao teu próximo -, percebe.

Das conquistas, ela também ressalta o fato da mulher ter obtido de fato o controle da sua vida sexual, do fazer sexo com e por prazer e não na obrigação ou por reprodução. Mas com isso, Sheron critica o fato da mulher ter se tornado um “objeto de erotização”.

- A mulher conseguiu sim derrubar muitos estereótipos, mas fez surgir novos -, aponta ela, referindo-se a figuras que acreditam que mini-saias e decotões são necessários para se firmar e conquistar notoriedade. “Isso não é ser sensual e nem é feminilidade”, defende. Outro ponto negativo dessa tal “liberdade feminina”, é a busca incessante pela perfeição da forma custe o que custar.

Arquivo Pessoal

- Muitas ostentam uma tarja preta na testa com a obrigação de ser gostosona, de possuir determinadas características que não condizem com a sua personalidade na obrigação de serem vistas como um objeto de prazer. O que acaba muitas vezes deixando uma pessoa estereotipada, com um comportamento padrão de outra pessoa. E com isso, perde-se a identidade. A mulher deixa de se reconhecer como é -, expressa-se.

- Os estereótipos não se extinguiram, o que houve foi um acréscimo. Os perfis, os papéis da mulher em sociedade, se somaram. Por exemplo, ainda hoje existem mulheres que apanham, não falam e não fazem nada. O perfil da mulher fragilizada que acha que não pode e que não deve, bem como o da mulher que o único objetivo na vida é cuidar da casa, dos filho. Alguns em menor proporção, mas ainda existe -, adverte.

Entretanto, ela também reforça o lado bom das características do novo padrão feminino.

Bruno Kairalla
Com a amiga, Alessandra Castro

- Com certeza, com o tempo quebrou-se alguns parâmetros. A mulher está aprendendo a se impor e a mostrar que tem personalidade. Além do avanço no mercado, da liberdade do prazer sexual, as mulheres evoluíram na tomada de posição, de criar a sua família da forma que bem entender, de ser mãe solteira, de adotar uma criança sozinha.

- Até porque a mulher não vê mais o homem como uma necessidade e sim o deseja para ser um companheiro. Do contrário, ela prefere ficar sozinha. Hoje, tu vê muitas mulheres que não querem nem ter filhos para ser totalmente independente -, destaca.

Bruno Kairalla

Além disso, por experiência própria, reforça o fato de ter se tornado comum a mulher assumir cargos de chefia em todas as frentes de trabalho. E, claro, defende sua posição: “Elas conseguem coordenar melhor do que muitos homens justamente por possuir uma delicadeza, uma destreza para tratar com pessoas”, acredita.

Feminina

Vaidosa como toda mulher de verdade, ela não esconde que como todas leva horas até escolher uma roupa.

- Não sigo um padrão. Na verdade a única coisa padrão em mim é o meu cabelo, que não muda nunca [risos]. Às vezes sou básica, gosto do estilo eclético, mas se tiver que ser extravagante, também sei ser.

Arquivo Pessoal

- Mas também tenho um lado careta. Não consigo acompanhar muita coisa da moda. Aliais, nunca vou fazer algo que eu não gosto para segui-la. Mas se me agradar, eu também não tenho nenhum preconceito com a moda, apenas não sou refém dela -, admite.

Ainda dentro do seu perfil, Sheron confessa que gosta de cuidar da casa, do seu jardim e que sonha em um dia ter uma estrutura familiar. - Até porque uma coisa não exclui a outra. Não é porque sou feminina que não vou querer ter uma família. É natural toda mulher sonhar com isso.

Arquivo Pessoal

- Só que por conta disso, ela não pode é se anular. Não pode ser só isso -, indica.

Quanto ao tema violência contra mulher, Sheron discorre que ela ainda existe em grande escala e parte de pessoas que menos se espera.

- A mulher pode ser mais explosiva, mais brigona, mas ela é mais contida. A violência, a agressão não faz parte de sua natureza. O homem já tem toda uma tendência para o uso da força. E olha que quando falo em violência também me refiro aquela de forma moral, verbal. Aquela que tu anda na rua e escuta uma piadinha ou uma coisa obscena.

- Muitas se sentem ameaçadas e para não ter que se expor a isso, mudam o rumo, o que acaba sendo uma poda na tua liberdade. Tem muita mulher que não sabe, mas é isso é crime, assim como é o assédio sexual, algo que também seguida vemos acontecer -, lamenta.

Curta, porém extensa trajetória

Próxima de completar 26 anos, no dia 13 de maio, a taurina já responde por um vasto currículo. Rio-grandina, Sheron deve boa parte de sua educação a sua avó, para ela, um parâmetro de mulher.
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Os pais e a avó de Sheron

- Identifico-me muitíssimo com a minha avó, ela é o meu centro, o meu eixo. Ela sempre foi de coordenar, dar ordens, contestar. Fui criada por ela e acho que tenho muito dela -observa.

Durante a sua formação, estudou por escolas públicas e particulares da cidade. E foi durante esse percurso, frente ao seu espírito de liderança, que descobriu sua vocação para a área da Comunicação Social.

- Sempre fui metida pra caramba. Fui líder de turma, baliza de banda, representante de grêmio estudantil, participei de vários projetos. Até prefeita fui eleita dentro da escola, numa campanha realizada dentro do Colégio São Francisco -, acrescenta ela, referindo-se a escola marista da cidade, onde concluiu o Ensino Médio.

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Inserida num dos projetos vocacionais da Escola, começou a conhecer a profissão de jornalismo. Até que por sua facilidade em se expressar e transitar por vários grupos, foi convidada a assumir não só a bancada, como também as reportagens da Escola, quando esta criou em 2001 o seu estúdio interno de TV.

Um ano depois, quando já cursava Jornalismo na Universidade Católica de Pelotas, Sheron retornaria ao colégio marista, desta vez, em novo destino: dentro da sala de professores, como bolsista da área de TV.

Também nessa mesma época, ingressou no curso de Letras da Universidade Federal do Rio Grande. Pela sobrecarga nas atividades, teve que optar. Optou pelo jornalismo, Desde então, vem trilhando uma trajetória de visibilidade e importantes conquistas.

Arquivo Pessoal

O jornal pelotense Noite & Cia [com colegas na foto acima] foi o primeiro veículo a atuar como repórter colaboradora. Nele, chegou a coordenar a área em Rio Grande, quando a direção apostou rapidamente no mercado da cidade.

Depois, morou num curto tempo em Pelotas e atuou em projetos da Católica, dentro de um jornal comunitário e de um projeto fotográfico realizado na Ilha dos Marinheiros.

No verão de 2005, colocaria os pés pela primeira vez nos estúdios da então, TV Furg. Como estagiária, chegou numa hora de mudanças radicais de sua identidade e ideologia. Participou da mudança de nome para “Furg TV” – pois a instituição está em primeiro lugar – e em seguida foi convidada a participar de um teste para a rádio Oceano. Nela, se tornou a primeira – e até então - única voz feminina na cidade, dentro do veículo.

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Era a segunda vez em que atuava no rádio. Entretanto, diferentemente da rádio 99.9 de Pelotas, na qual levava informações aos sábados a noite para os ouvintes num programa para jovens, estilo ‘pré-night’, na Oceano, foi contratada e respeitada como profissional, lidando com a sensação do domínio direto e instantâneo com seus ouvintes.

- Um lugar que aprendi muito, deu-me visibilidade e que conheci muita gente legal. Falar em rádio é sentir uma liberdade de expressão tremenda. O poder de ter um veículo nas mãos, em que tu abre o microfone e te tornas responsável por tudo o que tu fala, tendo a certeza de que naquele momento existem centenas ou milhares de pessoas te ouvindo e querendo interagir contigo. É muito especial -, transpõe.

Enquanto pôde, Sheron manteve os dois empregos, na Furg TV e na Oceano. Depois, ficou apenas com esta última, mesmo que por pouco tempo, pois chegou o dia de sua monografia. Obrigada a escolher, por mais uma vez acúmulo de funções, optou por se preparar profissionalmente e concluir o curso de jornalismo.

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Com o diploma em mãos

- No dia que entreguei o trabalho de conclusão, a Furg me chamou de novo e eu topei -, observa. Ainda nesse meio tempo, novas experiências apareceram durante as eleições de 2008: foi convidada a se tornar apresentadora e porta-voz das propostas políticas nos programas da Frente Popular (PT).

Com um poder de oratória singular e uma personalidade unica, Sheron foi elogiada por prestar uma identidade e uma cara nova a campanha. “Foi uma experiência fantástica”, define ela, que afirma não ser filiada a nenhum partido. O único contratempo foi receber críticas e até mesmo reclamações de cunho partidárias. “As pessoas confundem muito. Elas me viram como a “menina PT” e não como a jornalista que estava ali transmitindo informações”, comenta.

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Apesar disso, ela garante que se fosse convidada ingressaria na experiência novamente, no PT ou em qualquer outro partido que estivesse de acordo com as suas próprias ideologias. “Também fui convidada para apresentar em Pelotas, mas não fui porque não tinha nada a ver comigo. Mas faria de novo, sem dúvida. Claro, agora estou numa outra fase profissional e avaliaria o momento”, salienta.

- Se tem uma coisa que nunca tive foi medo de experimentar e conhecer a minha área de atuação. Sempre fui curiosa e gostei de saber como funciona ou como é tal veículo. Sinto que hoje estou mais preparada -, reflete.

Furg TV e FM
Bruno Kairalla

Depois de passar por praticamente todas as mídias que abrangem o jornalismo, Sheron, agora voltada para o exercício pleno da comunicação educativa, ao lado de uma equipe composta por outros 20 profissionais, sente-se realizada no posto de coordenadora da Furg TV e Furg FM, que produz diariamente no mínimo uma hora de programação cultural.

- Nenhuma outra TV na cidade produz tanto como a gente. São cerca de 6 horas semanais produzindo assuntos que estão em volta da comunidade -, brinda. Ela que como estagiária participou da reestruturação da TV, traça uma análise do que se tornou a TV nos últimos anos.

- Gosto desse caráter político, democrático e público da produção de informação. Temos um compromisso democrático porque a TV é pública. Não dependemos de um patrocinador para levar nada ao ar e justamente isso dá a liberdade de dar voz a todos cidadãos que podem e devem ter voz aqui dentro, pois são eles que estão pagando. É um serviço feito para a comunidade e enraizar isso na cabeça de todos que entram aqui, jornalistas e produtores, é uma das minhas funções também -, enfatiza.

Bruno Kairalla

Nas atribuições de Sheron está o compromisso de garimpar, selecionar os assuntos que serão produzidos e levados ao ar, dando um foco e um direcionamento aos jornalistas da redação. “Discutimos a pauta, o formato das entrevistas, das reportagens, procuramos o lado educativo e a visão crítica que o assunto exige. Também avalio os traços no perfil de cada jornalista e o adequamos para um determinado estilo de programa”, comenta.

Enquanto coordenadora, para Sheron, seu maior desafio foi lidar não só com um grande volume de informações diárias, mas também com um enorme grupo de pessoas e muitas que viu se formarem junto, antes ou depois dela. “No início, foi difícil lidar com isso. Ainda mais com pessoas que possuem a mesma vivência e faixa etária que tu. Houve uma divisão da Sheron, colega e chefe no trabalho e depois, fora do expediente, de volta como a amiga”, aponta.

Ao vivo
Uma das grandes conquistas dela e de toda a equipe foi colocar a Furg TV ao vivo no ar pela primeira vez em sua história. O feito ocorreu primeiro com o programa de rádio que Sheron apresenta, o RU Café.

- Mas até aí era algo dentro do estúdio, o programa na rádio já é ao vivo, não teve muita novidades - conta. A grande estréia ocorreu mesmo na inauguração da 37ª Feira do Livro, logo depois que a equipe batalhou e adquiriu o link necessário para fazer as transmissões ao vivo fora do estúdio.
Arquivo Pessoal

O sucesso da iniciativa se repetiu nesta última semana, quando a TV foi parar dentro do Centro de Convivências na Furg, acolhendo toda a comunidade universitária.

- Foi algo inédito para todos. E aqui temos esse objetivo de fugir do tradicional. Meu papel é motivar e empolgar o grupo. E tem muita gente aprendendo, fazendo o que nunca fez. É maravilhosa essa oportunidade de experimentar. E isso só dá certo porque existe uma equipe coesa, preocupada com a qualidade de tudo que é levado ao ar. Um desafio para todos e que todos topam e fazem muito bem feito. Há uma entrega, um compromisso geral e isso é muito gostoso - assegura.

Bruno Kairalla

- Tenho um baita orgulho do que faço. Apaixonei-me por esse tipo de jornalismo cujo grande diferencial é explorar o lado cultural da notícia, sem a preocupação com o que é factual. O que te permite realizar uma pesquisa e se aprofundar no assunto, trabalhando com uma linguagem didática, científica, de formação de opinião -, finaliza.

Homens
Na maioria dos lugares por qual passou, Sheron sempre trabalhou em sua maioria com homens. Prefere assim. “Sempre me dei melhor com homens do que mulher no que toca o trabalho, pois sempre me senti acolhida e valorizada”, percebe-se.

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E afirma que apesar das piadinhas por conta de sua personalidade, - “Pra homem falta pouco, hein” - nunca passou por uma situação clara de preconceito. “Houve sempre um cavalheirismo muito grande. Sempre me respeitaram muito, em todos os lugares”, confirma.

- Por mais que eu seja feminina, vaidosa, mulherzinha, eu tenho uma linguagem com os homens muito próxima, até porque não tenho frescuras. Eles não vão mudar de assunto ou deixar de falar palavrão porque estou entrando na sala ou vão ficar com vergonha. E isso faz com que eu também consiga me aproximar deles de uma forma respeitosa e ao mesmo tempo brincalhona. Não há abuso de brincadeiras, mas ao mesmo tempo não há pudores. Há um balanço e isso eu acho bem legal - pontua.


27 de fevereiro de 2010

Aplausos para uma guerreira


Ainda falta uma semana, mas o Mulher Interativa antecipa a celebração de mais um Dia Internacional da Mulher, brindando seus leitores com uma história no mínimo marcante e muito especial. A trajetória de Neiva inaugura com chave de ouro as reportagens especiais e as novidades que o Mulher apresenta no decorrer desse próximo mês. 


Parece história de novela, mas não é. No mínimo, inspiraria qualquer autor de folhetim. Também renderia uma bela história para ser exibida no “Lar Doce Lar”, do programa Caldeirão do Huck.

A trajetória desta família prova que na vida sempre há lugar a quem por ela luta dia após dia. Por tudo o que já viveu - e ainda vive, Neiva Marilaine Rohde Martins, mesmo só com 44 anos, merece as condecorações de uma guerreira.


Escrito por Bruno Zanini Kairalla
- Fotos-reportagem: Bruno Kairalla
- Sugestões: bruno.kairalla@gmail.com
- Editora: Rosane Leiria Ávila

Natural de Três Passos (RS), Neiva chegou com a família em Rio Grande quando tinha apenas 12 anos. A terceira de um total de quatro irmãos, veio para acompanhar seu pai que, na época desempregado, conseguiu trabalho numa das antigas firmas portuárias da cidade.


Atrasada nos estudos, aos 14 anos, não tinha material suficiente para usar na escola. Foi então que decidiu trabalhar. Indicada pelos irmãos, empregou-se na fábrica de peixes, Pescal.

Aos 17, começou a trabalhar como emprega doméstica em casas de família e, um ano depois, enfrentou a internação e, logo após, o falecimento de seu pai.

Próximo de seus 21, apaixonou-se por um jovem de 17 anos. Engravidou. Insegura por todo o contexto da situação, escondeu a barriga enquanto pôde. Quando decidiu contar foi como bem previa: “a criança ou eu”. “A criança é minha”, respondeu ela, sem nem pestanejar.


Durante os últimos meses de gestação parou de trabalhar. Quando seu filho, Jessé Rohde completou seis meses, enfrentou uma série de dificuldades que a levaram pedir ajuda para um de seus irmãos.

Nesse mesmo período, trabalhou para um estancieiro, limpando com fortes produtos químicos, as crinas de cavalos. Por conta disso, deixava seu filho sob os cuidados da família, que não se mostrava nem um pouco disposta.



Enquanto pôde, Neiva aturou as queixas, as intrigas e reclamações. “Minha cunhada não me queria lá dentro. Deixava claro isto. Sumiam as coisas de dentro de casa e ela dava a entender que eu estava vendendo o que era deles”, recorda. 

Incomodada, sentindo que estava perturbando na casa do irmão, Neiva não parou para pensar. Juntou o pouco que tinha, pegou o filho com ainda meses de vida e foi para debaixo dos eucaliptos da Assis Brasil. Vivendo ao relento durante os dias e as noites, enfrentando sol e chuva, por ali residiu durante intermináveis seis meses.

Eucaliptos

No abrigo, Neiva dividia seu espaço e também as noites com viciados em todos os tipos de entorpecentes, inclusive, traficantes. “Para ser bem sincera, quem mais me dava força era esse pessoal. Uns me davam o que comer, enquanto outros arrumavam uns plásticos, panos e caixas para poder colocar as minhas coisas”, conta.



A água, ela conseguia com moradores, nos arredores. Um deles, seu Antônio, guarda do local e que não sabia onde era o seu refúgio, lhe conseguia o leite para dar de alimento ao filho.

“Durante o dia, eu tapava todas as minhas coisas com um pano e pedras por cima e saía com o meu filho para caminhar. Voltava para os eucaliptos só para dormir, à noite. Foi uma das fases mais difíceis que enfrentei”, lembra. E ela ainda não sabia ainda que Jessé foi acometido por uma grave doença no dia de seu nascimento.


Para sair da situação em que se encontrava, Neiva contou com a ajuda especial de um antigo vizinho, o seu Tito, que na época tinha 78 anos. “Ele conseguiu uma casa bem modesta e simples, na Henrique Pancada, que tinha apenas uma peça e uma patente”, acrescenta. No local, Neiva ficou por quase dois anos. Saiu porque mais uma vez sentiu que estava “estorvando” alguém.

“Ele penhorava a carteira dele numa venda para poder comprar leite para o meu filho. Ele recebia apenas um salário. Aquilo me chocava”, lamenta. Neiva comentou com uma amiga que tinha necessidade de se sentir útil e que gostaria de poder morar e trabalhar para alguém. A amiga indicou. E é neste ponto que entra outra personagem dessa história.



Há 19 anos, Neiva viu pela primeira vez Paulo Luiz Martins, hoje com 60. Na época, Paulo morava e trabalhava na região do Taim e precisava de alguém que cuidasse de sua filha pequena. Neiva foi morar com Paulo. A ex-mulher de Paulo soube da existência de Neiva, e proibiu a filha de morar com o pai.



“Quando soube disso, fiquei desesperada, pensei que ia voltar à estaca zero de novo”, temeu ela na época, que ainda não via Paulo como o homem da sua vida. “Na verdade, nem pensava nisso. Estava tão traumatizada com tudo o que aconteceu no meu primeiro relacionamento que eu não queria passar por nada daquilo de novo”, expressa ela.

“Ela também não era o meu tipo de mulher. Mas, depois de um tempo, chegou um momento em que sentamos e conversamos. Disse a ela que, ao menos, tínhamos que tentar para ver se daria certo e até hoje estou esperando essa resposta dela”, brinca seu Paulo.


Na verdade, a resposta dessa tentativa chegou dois anos depois, com o nascimento de Jéssica Marisa, hoje com 15 anos. Um pouco antes, Neiva percebeu que algo estranho acometia o filho, Jessé.


“Desde que ele nasceu, ele chorava muito, mas não era visível o problema. Só depois, o médico explicou que houve complicações durante o nascimento e que ele tinha paralisia cerebral. A princípio, Jessé não tinha movimento e coordenação nos braços e nas pernas...


....Com o tratamento, revertemos essa situação, mas a fala está até hoje comprometida. Do Taim, saía com ele nos braços, caminhava quatro quilômetros para chegar na faixa, pegar o ônibus e vir para Rio Grande fazer apenas 20 minutos de fisioterapia”, explana.


Jéssica, filha do casal, também passa por tratamento, depois que foi diagnosticada dislexia (incapacidade do aprendizado). Hoje, Jéssica comemora o reinício das aulas, agora na 6ª série.

Novas barreiras
Após o nascimento de Jéssica, as adversidades retornariam a bater na porta do casal. “Paulo foi demitido e tivemos que voltar sem nada, com uma mão na frente e outra atrás, sem casa, sem nada”, recorda Neiva. Na época, a única renda que eles contavam era com os R$ 140,00 que Jessé recebia do governo para manter o tratamento.


“Cem reais pagava o aluguel da casa em que estávamos e, com os outros 40, a gente se alimentava. Paulo não conseguia serviço em lugar nenhum e começou a ir para o Parque Marinha bater de casa em casa para pedir alimentos”, relata Neiva.

Por uma cunhada da irmã de Neiva, o casal soube de um terreno quando o bairro Cidade de Águeda, ainda era todo tomado por morros de areia e nem era conhecido por esse nome. Há 13 anos nesta localidade, eles foram uns dos primeiros moradores.


A casa, toda em madeira localizada aos fundos, eles apelidaram carinhosamente de “nosso chalezinho”. Na área da frente, e sem nunca terem lidado com construção, os dois são responsáveis por, com o próprio suor, levantar cada tijolo, numa obra de seis peças que, infelizmente, ainda não conta com prazo garantido de conclusão.


“Tivemos que parar um pouco, pois a saúde de Paulo está debilitada. Ele sofre de diabete e também possui problemas no coração”, explica Neiva. Efetivamente, o terreno ainda não está regularizado e não está no nome deles.


Entretanto, no local, eles pagam água, luz e telefone. “Esse é o pedacinho que nós conseguimos, que Deus nos deu e é aqui que nós vamos ficar”, diz Neiva, cujo maior sonho é ver um dia a casa construída e mobiliada. Seguidores da Igreja Adventista, os dois estão casados há 10 anos.

Tigrão


Figurinhas para lá de carimbadas, os dois seguem a profissão que teve início há cinco anos. Na verdade, tudo começou com Paulo. Ele é quem tomou a iniciativa de ser um dos guardadores de carro na frente de uma das festas mais tradicionais da cidade, o bar Tigrão.

Neiva entrou nessa por acaso, quando Paulo ficou hospitalizado por alguns dias. “Dependíamos disso. É o nosso sustento e de onde retiramos o nosso alimento. Não podíamos ficar sem trabalhar. Foi aí que, durante o dia, passava com ele no hospital, cuidava das crianças e, a noite, comecei a substituí-lo no Tigrão”, comenta.

Depois que deixou o hospital, em fevereiro de 2007, Paulo, ao voltar para o trabalho, apenas ouviu: “Eu vou junto. Da porta pra cá é o meu lado, da porta para o outro lado é o teu”, impôs Neiva ao marido. Sobre a “profissão”, Neiva diz que tomou gosto.


“Gosto demais do que faço. Se tornou algo prazeroso”, explica. Dos piores problemas que enfrentam durante a noite, os furtos não configuram o primeiro lugar da lista. “Esses são fáceis de notar e evitar”, fala. O pior, na visão dos dois, é ter que aturar a vingança com as brigas conjugais.

“O que mais acontece é ex-mulher ou ex-marido querer se vingar e estragar o carro do ex-companheiro. Quebram sinaleiras, vidros, arranham, furam pneu, fazem de tudo. Às vezes, não tem nem como evitar e, em outras, nem notamos de tão rápido ou escondido que fazem”, relatam.

“E o pior é que para os donos a gente ainda leva a culpa”, dizem. Mas também já passaram por bons apertos, como em outubro do ano passado, em que Paulo teve uma arma apontada para a sua cabeça. “Levaram o pouco que tínhamos feito durante a noite. Sobraram só as moedas. Mas ainda bem que com os carros não fizeram nada”, comenta Paulo.


Fora isso, os dois se divertem com os bêbados da noite, riem dos porres alheios e até tentam evitar quando ocorrem brigas. Alta, forte e de origem alemã, Neiva concorda que suas atribuições ajudam na hora de manter o respeito. Mas, mesmo assim, muitas vezes tem que ouvir as piadinhas e até recusar propostas indecentes. “Por outro lado, muitos se tornam fregueses e até amigos, que saem das festas e param para conversar conosco”, discorre.

Inverno ou verão, na cidade ou no Cassino, os dois estão sempre por lá e comentam que juntos, durante uma noite, a média dos ganhos varia entre R$ 50 ou 70 reais. Sobre quem consegue um desempenho melhor durante a noite, a proeza é de Neiva. “Eu consigo tirar R$ 50, quase sempre. Já Paulo tem noites que consegue só R$ 10”, aponta.

O retorno


No final da entrevista, convidamos dona Neiva e sua família para ir conosco até o local em que ficou por meses ao relento. Ao chegarmos lá, ela e o filho, Jessé, saem na frente. Com passos firmes e sem se equivocar, Neiva percorre a trilha e segue em direção ao eucalipto principal que lhe ofereceu estrutura e suporte.


Assim que chega nele, toca-o, fica pensativa, como se estivesse visitando ou visualizando todas as suas velhas lembranças. Depois de alguns minutos, quebra o silêncio:

- Nunca mais vim até aqui. Quando passava por essa região, nem olhava. Tinha muito medo de um dia ter que precisar voltar para cá. Confesso que pensei até em me matar e só não fiz isso por causa do meu filho, que foi a minha segurança, a minha razão de vida -, pontua ela.


Por fim, emocionada, Neiva narra as angústias e os momentos de desespero pelo qual passou. “Rezava muito. Pedia para Deus cuidar de mim e dar-me forças para zelar pelo meu filho”, conclui ela, ao se abraçar em Jessé, com as pernas bambas e trêmulas.


Paulo, conhecedor de todas as fases de sua mulher, ao visitar o local pela primeira vez, fica impressionado. “Só imaginava a cena, mas nunca tinha visto o local. Realmente, ela foi uma guerreira”, finaliza.