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24 de julho de 2010

InterVEnções URbanas


Você sabe o que são flash mobs?

Até bem pouco, eu também não sabia.

Essa nova informação – pelo menos pra mim - estava em minha caixa de correspondência há alguns dias.

Flash Mobs são propostas para despertar o olhar e a mente automatizados pela rotina estressante das grandes cidades.


Algumas manifestações são previamente combinadas pela internet.

Levantando bandeiras sociais, comportamentais e ambientais, os flash mobs
promovem o encontro de desconhecidos unidos em torno de uma causa, imbuídos por um esforço nobre que procura reverter o isolamento das pessoas.



Desconhecido não só para mim, mas também para a grande maioria das pessoas, tem conquistado cada vez mais adeptos.

O primeiro desses movimentos é em relação aos
livros.


Segundo o idealizador do projeto “Livro Livre”, Felipe Meyer, “livros não são objetos de decoração e devem percorrer um caminho”.


Por conta disso, o paulistano passou a se deparar com livros propositadamente esquecidos por alguém em bancos de praças ou pontos de ônibus.

O conceito é inspirado no projeto Bookcrossing, criado em 2001 nos EUA.


Ao todo, conta com 600 mil participantes em cerca de 130 países.

Lembro de uma reportagem apresentada por Ana Maria Braga sobre um movimento semelhante há uns dois anos.


Pena que de lá para cá, as atitudes nesse sentido no Brasil ainda sejam tímidas, pois o movimento esbarra em entraves econômicos e sociais.

Gentileza às escuras

O segundo movimento é o Café do Próximo, uma corrente surgida há três anos na qual o cliente deixa pago também um cafezinho para o cliente seguinte, o qual desconhece totalmente.

Motivada, a dona de um café na Vila Madalena, em SP, Beth Guido, resolveu acatar a sugestão do psicólogo Marcos Fleury, que conhecera a prática na Livraria Argumento, no Rio.

Pagar o café para alguém é uma demonstração simbólica de afeto”, define ela.


Para o psicólogo, por meio dessa gentileza às escuras os adeptos também se aproximam das outras pessoas, mesmo que não conheçam seus rostos.

Embora tenha quem ainda se surpreenda com a proposta do estabelecimento, a lousa gasta onde ficam anotados os cafés ofertados gratuitamente, é prova do sucesso da ação.

Iluminação urbana

O terceiro flash mobs é o batizado de “Iluminação Urbana”.

Em trajes sociais, as transeuntes vão se juntado à meditação do grupo Influenza (nome dado numa paródia ao do vírus H1N1), em plena Avenida Paulista.


A meditação é feita na hora do rush para chamar a atenção das pessoas, valendo-se do silêncio em meio à balbúrdia de final de expediente.

“Ao invés de lutarmos por uma revolução externa, buscamos uma revolução interna: a tranqüilidade em meio ao caos”, justifica o artista Alexandre Paulain, um dos criadores do grupo Influenza.

A prática da meditação geralmente está associada a imagens de ambientes zen, por exemplo.

Imaginar-se algo assim em meio a um caos urbano é, no mínimo, estranho.


Mas essa intervenção pacífica está sensibilizando não só participantes e pedestres: até mesmo menores de rua que, em paz, aproximam-se do grupo.

São pequenas atitudes revestidas de grandes gestos, mas capazes de tornar a vida melhor em qualquer lugar e a qualquer hora.

Crônica de Rosane Leiria Ávila

E-mail
rosaneleiria@gmail.com

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17 de julho de 2010

Roupa para a Alma



Nesta semana de temperatura extremamente gélida, algo me faz lembrar de minha infância - ele mesmo, o frio.

Resgatado por uma prática assumida em momentos de crise: a de colocar a roupa que vou vestir próxima a uma estufa para aquecê-la.

É uma sensação muito agradável... Parece um carinho!

Na verdade, é um carinho.


Na minha infância, o de minha mãe que, zelosa ou temerosa que eu ou minhas irmãs ficássemos doentes no inverno, tinha o costume de esquentar as roupas que vestiríamos após o banho, quando pequenas.

Ou mesmo não tão pequenas, porque bastava que estivéssemos um pouco resfriadas e o velho ritual já era colocado em voga.

Não sei se ela ainda se lembra disso.

Mas eu sim, e reeditei o velho costume neste inverno que, para o meu desconforto, ainda está longe do fim.


- Tem feito muito frio, até mesmo para um gaúcho, segredou-me um velho senhor dividindo comigo o estreito balcão de uma cafeteria apinhada de gente, na tarde fria da última quinta.

- Ou talvez porque a temperatura no inverno tenha se elevado e as próprias estações por vezes fiquem indefinidas, é que sintamos tanto quando voltamos aos tempos de invernais de outrora, com imagens de geadas nos campos, de sensações doídas de vento como navalha na pele, ilustrou ele a sua própria afirmação.


- Mas o frio tem o seu lado bom -, retrucou uma mulher, atenta à nossa conversa de balcão.

- Estamos aqui bem agasalhados, tomando um cafezinho fumegante muito gostoso. Em minha opinião, todos ficam mais elegantes no inverno. Há prazeres que o verão nos rouba -, completou.

O interlocutor olhou para ela e sua vontade de faltar com o respeito que o avanço de idade permite, quase aflorou.

Mas se conteve e conseguiu lhe perguntar, entre dentes:

- A senhora olha à sua volta quando sai à rua?

- Percebe os que dormem nas calçadas? As crianças? Os animais?


- Enquanto abrigada confortavelmente em suas roupas consegue pensar naqueles que poucas têm para se cobrir? Que se vestem com trapos e farrapos? E que, além disso, também não podem tomar um café quente ou fazer uma refeição mais calórica?

A essa altura, além de nós dois, a conversa passou a interessar quem estava em volta.

A mulher ficou em silêncio, sorvendo os últimos goles de seu café.


Depois, vagarosamente pousou a xícara sob o balcão, pegou as luvas dentro da bolsa e começou a vesti-las, sem pressa.

Deduzi que o café já estava pago porque ela deu alguns passos em direção à saída, parando na frente dele.

- Não julgue nem acuse sem o conhecimento da verdade. Para onde o senhor vai quando sair daqui?

- Ora, vou para casa assistir tevê. Reunir-me com a família e, mais tarde, tomar uma deliciosa sopa no pão, especialidade de minha mulher. Acompanhada de um bom cabernet, é claro. Mas o que isso tem a ver com a nossa conversa?

- Quase nada... Nada mesmo. Só que daqui eu vou me encontrar e trabalhar voluntariamente com um grupo que socorre pessoas em situações de risco por causa do frio. Distribuímos roupas para o frio e para a alma. Além de café quente e lanche.

Depois disso, virou-se e saiu.


Silêncio e sorrisos amarelos.

Quase todos fazendo um ‘me culpa’ e pensando em suas próprias atitudes.

Ou na ausência delas.




Crônica escrita pela editora Rosane Leiria Ávila
- E-mail: rosaneleiria@gmail.com

13 de julho de 2010

Insights & Sonhos


Escutei o relato abaixo durante uma palestra há algum tempo e rabisquei num bloco que resgatei esta semana.

A mulher tinha o mesmo sonho durante muito tempo em sua vida: estava na frente de um templo junto com um grupo, mas não pertenceia a ele.

Depois de uma breve combinação, o grupo entrava, mas ela não.

Não entrava porque tinha medo.

E tinha medo porque sabia que estava morta e o seu corpo estava enterrado lá dentro.


Anos mais tarde, ela, professora de artes plásticas, acompanhou o marido, também professor, em um estágio na Espanha. Numa tarde, enquanto o marido estudava, ela resolveu caminhar sem um destino definido. E de repente, viu-se diante de um templo.

Para sua estupefação, o mesmo que aparecia em seus sonhos.


Na frente do prédio, um grupo de turistas que se reunia à volta do guia para acertar detalhes da visita ao local.

Ela se sentiu como se estivesse pregada ao chão.

Paralisada pelo medo, não teve coragem de entrar com o grupo.

Todos entraram, mas ela ficou ali durante um tempo que lhe pareceu interminável.

Fechou os olhos e sua mente começou a mesclar imagens lá de dentro com a rua onde ela estava.

Durante um longo período ela ficou parada decidindo o que deveria fazer.


Receava que assim como o sonho lhe mostrou, seu corpo estivesse enterrado lá dentro.

Mas foi que, de repente, a professora de artes conseguiu enxergar que aquela era uma oportunidade única em sua vida nesta vida.

E que talvez não viesse a se repetir.

Então, resolveu entrar no templo e visitar as clausuras.

E teve uma regressão a uma vida passada de forma espontânea, na qual enxergou a si própria como um monge que viveu naquele tempo.


Num insight, viu que o claustro antes era um jardim cheio de rosas, com borboletas e passarinhos. Emocionou-se e agradeceu aquele momento orando por todos os monges.

Para mim, os sonhos são valiosos e podem elucidar muitas situações, conflitos, vivências.

Também são veículos de nos conectar com o EU interior.

E muitas vezes, podem ser usados como 'passaportes para outras vidas'.


Como o da professora.

Aos meus, dou relevante importância e deles muitas vezes extraio bastante do que escrevo.

No quarto, na mesinha junto ao abajur, há um bloco em lugar cativo e uma caneta a postos à espera de um bom sonho.


Crônica escrita pela editora Rosane Leiria Ávila
- E-mail: rosaneleiria@gmail.com

6 de julho de 2010

Domingo tem cara de domingo


Quem inventou o domingo?

Por fundamentação bíblica e etimológica, o domingo é considerado o primeiro dia da semana.

Dia de oração e de descanso para a maioria dos cristãos e povos de todo o mundo.


Mas para mim domingo é só o dia de permissão sem grandes explicações; um dia que tem cara de domingo e ponto final.

Pode ter o mesmo sol, a mesma lua.

Pode ser na mesma cidade, no mesmo bairro, na mesma casa.

Mas, dá pra se perceber que é domingo porque tudo fica mais preguiçoso e a vida ganha ar de mormaço...

Pelas falas pausadas de todo mundo, pelos movimentos mais lentos...


Desde criança adoro domingos.

Domingos bem cedinho, quando o dia começa a clarear e todos ainda dormem.


Domingos matinais nos quais o café da manhã tem mais aroma e sabor e é sorvido mais lentamente, com biscoitos doces.

Com café que quase esfria na caneca por causa do displicente folhear da revista que chegou durante a semana, e que ainda estava no plástico à espera do domingo chegar.

É dia de atualizar blog, Facebook, Twitter, Orkut, Windows Live...


Ou dia de ficar até mais tarde de pijama com cabelo por pentear.

De deixar cama desfeita, louça na pia.

É dia de não se irritar com coisa alguma.

Único para tomar chimarrão acompanhado de biscoitinhos salgados.

É dia de cheiro de churrasco na vizinhança. Ou fila na porta de restaurante.


Dia pra comer pipoca, de ir ao cinema.

De passear demoradamente com o cachorro.

De curtir a família.

De se juntar aos amigos.

De sentar no parque.

De observar os outros.

De se deixar observar pelos outros...


Se pela Bíblia o domingo é considerado o primeiro dia da semana, pra mim é o último.

Aquele que põe um ponto final em uma semana de agenda esgarçada, de horas espremidas, de tráfego lento, de alimentação desleixada...

Domingo é dia de não se importar com coisas sérias, ou melhor, não pensar em coisas sérias.

Por isso, recebo o domingo com alma de criança.


Às vezes, já no sábado em sua derradeira despedida a menos de um minuto para a meia-noite.

Mas como tudo na vida - bom e o ruim - em um momento acaba, o domingo também se vai.


Pra mim logo após o almoço, quando então sou obrigada a pensar na semana que se inicia.

Talvez seja por isso que eu retarde ao máximo momento de almoçar.

E o faça quando todos já estão pensando no lanche do final de tarde.


Para os meus domingos, permito-me tudo.

Mas recuso-me ver tevê.



Crônica escrita pela editora Rosane Leiria Ávila
- E-mail: rosaneleiria@gmail.com


18 de junho de 2010

O Som do Silêncio


- Você já esteve no centro de um dia no qual tudo o que queria era ficar quieto?

- Em silêncio?

- Em um dia no qual queria que o mundo fizesse silêncio?

- Que as buzinas não tocassem?

- Que as pessoas não falassem alto demais, que o som da tevê não fosse gritante e estridente?

- Um dia no qual tudo o que queria era escutar o som do silêncio?


O silêncio tem som. É verdade.

E seu som nos diz muitas coisas. É só ficarmos atentos.

De repente, fui invadida por uma enorme vontade de ampliar o horizonte do meu silêncio escutando a sonoridade mansa de Diane Krall, sua voz, suas músicas...



E foi assim, que ele - o silêncio -, se transformou num fundo musical na última quarta-feira, através da música "When I look in your eyes”.

Peguei no armário o CD dela, com certeza lançado há quase uma década.

O que fui buscar, se o que queria era o silêncio?


Lembranças?

Refúgio em sua melodia?

Seria esse um sintoma de saudosismo?

Quantas perguntas fiz a mim mesma depois que o relógio passou da meia-noite!

O silêncio aguçou meus questionamentos...


Ah, sempre ele - o silêncio que volta e meia me toma de assalto e ordena: “fica quieta!”

Ou que me dá ímpetos de sugerir aos outros: “baixem o tom, baixem o som, escutem o silêncio interior...!”

Lembro-me de mim como uma criança silenciosa.


Talhada assim talvez pela pouca psicologia - ou nenhuma -, da primeira professora na escola.

Alegre e tagarela, assim como as outras crianças eu aguardava sua chegada, depois da sineta bater.

Distraí-me ou me empolguei e não vi quando ela entrou, postando-se em sua mesa.

Todos calaram, mas eu continuava virada para trás conversando com a amiguinha.

Foi quando a escutei dizer meu nome em tom bastante alto, seguido pelas palavras: “Cale a boca. Sua voz é horrível!”.

Passei o resto daquele ano calada.


E nos muitos que se seguiram, economizei as palavras o máximo que pude.

Até compreender que, de nós duas, era ela quem tinha a voz horrível, pois era carregada de ressentimento com a vida.


Mas acho que escutar Diana não teve por um motivo especial.

Afinal, precisa mesmo de um para ouvi-la?

Ela, por si só, já se faz especial.

Sua voz sempre me pareceu preguiçosa, letárgica.


E, por isso mesmo, capaz de me arrastar por um fio condutor imperceptível a novos caminhos silenciosos toda vez que a escuto.

Como se o seu tom tivesse o dom me conectar ao silenciário.

Crônica escrita pela editora Rosane Leiria Ávila


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E-mail: rosaneleiria@gmail.com