31 de julho de 2010

Patrícia Wittenberg Cavalli:

Sedenta por contar boas histórias


Jornalista, roteirista, produtora e diretora. Ao lançar o curta-metragem “Compra-se Fuxico”, Patrícia Wittenberg, 38, apresenta sua primeira obra cinematográfica aos festivais brasileiros e internacionais.

Sua nova aposta, “Feliz Deserto”, um curta-metragem de 20 minutos, está em fase de pré-produção. Audaciosa, inquieta e envolvente, este talento genuinamente rio-grandino relata a sua trajetória ao repórter Bruno Kairalla e revela que já pensa em rodar o seu primeiro longa-metragem.



Finalização: Bruno Z. Kairalla
Fotos: Arquivo Pessoal/Divulgação

Patrícia Wittenberg de Souza Cavalli, uma bela rio-grandina de 38 anos que mantém protuberante toda a energia e jovialidade sustentadas pelo seu jeito atrevido, descolado e alegre de menina, daquelas que parece não crescer. Parece!

Seu crescimento manifesta-se pela renovação constante no que busca e obtém de cada nova experiência vivida de forma intensa. Casada há 15 anos com o pesquisador Ronaldo Cavalli, ela é hiperativa, envolvente e pra lá de comunicativa.


Mantém com vigor o espírito que começou ainda na infância e visualizou melhor através da profissão de jornalista. Aventureira, Patrícia é sedenta por novas histórias e descobertas.

Nesta fase, a principal delas resulta no lançamento do filme “Compra-se Fuxico”, curta-metragem do qual responde pelo roteiro, produção e direção, depois de atuar por vários anos como repórter e correspondente de importantes veículos de comunicação.

O encontro


Desta vez, esta papareia itineranente que já correu o mundo foi encontrada meio que por acaso em mais uma de suas fugidas a Rio Grande para visitar a mãe que vive na cidade.

Cheia de tinta de cabelo, não teve a menor vergonha em se apresentar a nossa equipe no coiffeur, Bira Lopes.

“Com a correria que estava minha vida nos últimos meses estava toda desgrenhada, então, vim me repaginar com o Bira. Ele é ótimo nisso”, diz Patrícia, sobre o artista, consultor e escultor da beleza, responsável pela coluna Realce.

Compra-se Fuxico

O ano começou movimentado para Patrícia, que dirigiu em 2010 o seu primeiro curta-metragem, “Compra-se Fuxico”. Em um minuto, o filme conta de forma divertida as histórias de sua costureira, a artesã Marli.


“Um dia cheguei em sua casa e reparei no papelão fixado na parede que dizia ‘Compra-se Fuxico. Perguntei o significado e ela já veio me mostrar colchas, almofadas, trilhos de mesa, explicando que comprava este artesanato, o fuxico, feito de retalhos de pano, pois estava fazendo uma colcha para a neta que ia casar. Também me contou a história de um senhor que do nada começou a lhe contar umas fofocas. Ele havia interpretado a palavra “fuxico” como fofoca. Pra mim, foi o suficiente”, recorda a jornalista.

Empolgada pela história que acabava de ouvir, Patrícia chegou em sua casa e começou a idealizar o roteiro. “Achei muito interessante aquela brincadeira com as palavras”, fala.

Para dar mais veracidade a história, a diretora decidiu escalar no elenco as pessoas que viviam no bairro da protagonista. Dona Marli, claro, aceitou desempenhar o seu próprio papel.


“O fofoqueiro é genro dela, o Naná. As “três fuxiqueiras” que vendem o produto são vizinhas. Procurei nelas um estilo meio irmãs cajazeiras do Bem Amado. São todas arrumadas, artesãs que vendem fuxico, um artigo de luxo!”, explana.

Sobre os momentos que antecederam o dia da filmagem, Patrícia conta que desenvolveu um laboratório com o elenco, dividindo seu conhecimento e experiências.

“Foram horas gravando e ensaiando o texto para ver como se comportavam com a câmera. Tudo tinha que parecer o mais natural possível. Dona Marli se saiu tão bem que muitos pensam que ela é atriz profissional”, comemora ela.


No curta, o destaque também vai para Yena (acima), a sapeca viralata de Patrícia, que, por sinal, saiu das ruas de Rio Grande no último período em que ela morou por aqui, quando também foi uma das fundadoras da ONG “SOS Animal”. Em 2007, Yena seguiu com o casal para Recife (PE), onde residem desde então.

Com a assinatura da produtora Cabra Quentes Filmes, o curta foi gravado em um único dia. “Isto porque não tínhamos grana para mais”, aponta Patrícia.

“No dia das gravações choveu a manhã intera! Dona Marli troca de roupa quatro vezes e por conta disso quase mudamos o roteiro. Foi uma loucura! Preocupamo-nos muito com a produção. O elenco foi muito carinhoso, pararam tudo, deixaram de trabalhar só para filmar”, acrescenta a roteirista.

Os produtores executivos do filme também são personagens comuns a vida da jornalista - sua mãe que arcou com as despesas e o seu marido, responsável pela logística e “pelo que faltava aqui e ali”. “Foi um trabalho em família”, define ela, ao indicar que “Os ‘Barreto’ também começaram assim [risos]”.

Patrícia observa que deu sorte também quanto a trilha sonora escolhida.


“Procurava uma música que combinasse com o filme, quando me apresentaram o “Forró na Ladeira” de Geraldinho Lins, um dos melhores forrozeiros do nordeste. Super gentil, ele autorizou os direitos autorais assim que soube do que se tratava o filme, assim como o cantor da Território Nordestino”. Alegre, “Forró na Ladeira” é daquelas músicas que ao se ouvir não deixa ninguém parado [veja acima].

A música também dá o tom apaixonante da história que lança na capa o seu convite: “Fofocas, fuxicos e muita confusão!”.

Papareias

Para a finalização do projeto, Patrícia contou com o reforço de uma amiga de infância, a também rio-grandina e publicitária Deise Sarda, proprietária de uma agência da área em São Paulo (SP). O reencontro entre as amigas ocorreu através da rede social, Facebook.

A publicitária foi responsável por criar a ilustração que estampa a capa do DVD. “Toda a criação foi feita via e-mail. Particularmente, fiquei muito contente com o resultado. Era exatamente o que queria. Duas mulheres rio-grandinas trabalhando juntas”, enfatiza.

Festivais


Correrias a parte, Patrícia já vivencia os primeiros resultados de sua obra. “Compra-se Fuxico” está inscrito em vários festivais. Só para citar alguns: Gramado Cine Vídeo, III Janela Internacional de Cinema de Recife, Festival Latino Americano do Ceará, Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro, entre outros.

“E ainda tem mais festivais pra se inscrever neste ano, inclusive, fora do Brasil”, aponta a idealizadora do projeto, que também sinaliza: “Além de festivais, o curta foi produzido para passar em escolas e demais instituições interessadas em mostrar um pouquinho do nosso Brasil, da nossa cultura, da dualidade da nossa língua portuguesa”.

“Tem gente que pensa que fazer um filme de um minuto é mais fácil do que fazer um curta de 20 min. Engana-se. Contar uma história que as pessoas entendam num piscar de olhos é complicado. Para editar o filme foram duas semanas, selecionando imagens, editando e reeditando (...) Hoje em dia tem muito festival de curtas que incluem filmes de um minuto. É um produto fácil de trabalhar, serve tanto para tela grande quanto para TV”, comenta ela.

Feliz Deserto


Compra-se Fuxico não é o único projeto da papareia para o cinema neste ano. Ela conta que aguarda aprovação e liberação do Ministério da Cultura para começar a rodar o seu próximo curta-metragem, “Feliz Deserto”, em que também assina pelo roteiro, produção e direção, novamente com a parceria da produtora Cabra Quentes Filmes.

Quanto a nova empreitada, distingue: “Esta é mais audaciosa. É um curta de 20 minutos que se passa em Alagoas, na foz do Rio São Francisco. Em 2007, quando viemos morar em Recife, viajamos para a cidade de Penedo e foi aí que o velho Chico mudou a minha vida”, pontua.


Sobre o enredo, ela apenas antecipa que a temática do filme gira em torno de “como ser feliz nos dias de hoje”. “Um filme para pensar, refletir”, sugere sua autora que além da prática de pilates e da alimentação orgânica, preza também pela meditação. Nela, encontra os seus melhores momentos para suas reflexões.


Da primeira vez que retornou de Penedo, a cada nova ida nas férias para a exuberante praia de Pontal do Cururipe, próxima a Penedo, Patrícia aproveita os momentos de folga para escolher suas locações, ao mesmo tempo que recarrega energias e colhe a opinião de amigos, como o cineasta Leo Falcão, sobrinho da roteirista responsável pelo filme, “O Auto da Compadecida”.

Entre os seus planos para o futuro está o de adotar ou gerar o primeiro filho. Neles, ainda consta a vontade de viajar em janeiro próximo, para a Índia, onde pretende trazer materiais para seus próximos projetos.

Além de Feliz Deserto, Patrícia escreve um roteiro para um documentário que será rodado em 2011. Neste ponto, ela revela que também almeja uma façanha ainda maior: o seu primeiro longa-metragem. “Mas de todos os planos, o que mais quero é ser feliz”, exclama.

Trajetória


Desde pequena Patrícia já dava sinais de que tinha pressa em fazer as coisas. Aos três anos ingressou no maternal Criança Feliz. Próximo dos seis entrou na primeira série do colégio Cristo Rei. Na adolescência, fez magistério no Instituto Estadual de Educação Juvenal Miller.

Como todas as crianças, Patrícia não esquece o presente que mais marcou sua infância: um gravador, que define como um “divisor de águas” em sua vida. O instrumento foi dado a menina depois que ela, em meio a tantos outros brinquedos, decidia empunhar uma escova de cabelo, como se fosse um microfone.


Com o gravador em mãos, imitava o jornalista Pedro Bial, escrevendo e editando aquelas que inocentemente seriam suas primeiras reportagens.

Outro presente vivo na memória: “Com sete anos ganhei do meu pai o livro O Pequeno Príncipe. Foi um dos maiores tesouros que ele me deixou: o gosto pela leitura. Volta e meio releio para lembrar de não virar adulta”. Do pai advogado, Patrícia sentiu um leve desejo para que se inclinasse ao curso de Direito – “e eu fiz errado”, brinca ela aos risos, sinalizando que a sugestão de cursar jornalismo foi dada pela mãe, que a lembrou de suas brincadeiras na infância.


Depois de ingressar na Universidade Católica de Pelotas (UCPel) foi morar em Pelotas, onde estagiou numa agência de publicidade. Inquieta, decidiu ir para a capital gaúcha, continuando o curso pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Por lá, também cursou locução e dicção para o rádio. Interrompeu os estudos e voltou para Rio Grande quando o pai adoeceu.

Por aqui, estagiou na RBS TV Rio Grande. Depois de um ano como ‘repórter fantasma’ - “pois só aparecia a mão” -, Patrícia foi promovida a apresentadora do Bom Dia Rio Grande. “Chegava da faculdade em Pelotas por volta da meia noite e às cinco da manhã tinha que estar na empresa, porque além de apresentar, eu era responsável por produzir, fazer as reportagens, editar as matérias e ainda tinha que me maquiar”, lembra.

“Como o desgaste era grande e não tinha mais maquiagem que disfarçasse as olheiras, virei apresentadora do Jornal do Almoço [risos]. A RBS TV foi minha escola e minha universidade. Lembro de profissionais como Diniz Jr., na época chefe de telejornalismo, a Rosangela Martins, que chamávamos carinhosamente de Rosquinha, a “Juju”, Julieta Amaral e os cinegrafistas Maureci e Niltinho. Acho que fui uma boa aluna e eles ótimos professores”, define ela sobre suas primeiras experienciais.

Importantes desafios

Na época solteira com 22 anos e com muito gás, Patrícia foi convidada pela direção da empresa em Porto Alegre a dar um toque gaúcho a nova sucursal da RBS TV que seria inaugurada em Criciúma (SC). Depois foi chamada para a sucursal de Cruz Alta (RS).

“Eu era solteira e eles me ofereciam desafios irrecusáveis”, diz. Entretanto, passado o tempo, Patrícia pediu demissão. Passou 15 dias com Ronaldo, na época seu namorado, no Japão. “Como não posso ficar sem trabalhar, acabei fazendo uma matéria de lá para a Zero Hora”, relata.

Com temperamento forte, ciente do que deseja, Patrícia foi à luta. Em pouco tempo já era nome conhecido de novo nas telas dos telejornais brasileiros. Aos 24 anos e casada, era uma das primeiras correspondentes internacionais do novo canal a cabo da história do telejornalismo brasileiro: a Globo News.

“Na época, o canal estava começando e, na verdade, nós começamos juntos com erros e acertos. Não era como hoje que se entra ao vivo pela webcam. A gente tinha uma foto que chamava de “santinho”, com um mapa do lugar onde estava falando e era tudo por telefone. Pra saber se a matéria tinha saído e como tinha saído, tinha que ligar pra mãe e pedir para ela assistir o telejornais. Era dinossáurico”, brinca ela.

Além da Globo News, enquanto esteve pela Europa, Patrícia fez correspondências para o jornal Folha de São Paulo, Canal Rural, EuroBrasil Press e Rádio França Internacional (RFI). “Viajei por todos os lados, da Europa do Leste ao Marrocos. Mas acho que foram alguns fatos que nunca vou esquecer, como, por exemplo, quando entrevistei o escritor, José Saramago”, relata Patrícia.

Separação


Os pais de Patrícia se separaram quando ela tinha nove anos e ela passou a viver com sua mãe. “Uma mulher que é referência na minha vida. Se faço tudo o que faço devo tudo a minha mãe, que me ensinou a nunca baixar a cabeça, a sempre seguir em frente. Minha mãe é meu exemplo de vida, quando tenho algum problema é sempre ela que me socorre, é meu anjo de guarda, foi ela que me ensinou a ser a mulher que me tornei....


Se fico triste, posso estar do outro lado do Atlântico, quando vejo o telefone toca, é ela . É sentimento de mãe. Minha mãe é tudo pra mim. Não há nada que aconteça de bom na minha vida que não tenha o dedo dela”, comenta Patrícia.

Saramago

“Certa vez um conhecido de um partido de esquerda que trabalhava no Parlamento Europeu me falou que Saramago seria homenageado em Bruxelas e se eu não gostaria de uma entrevista. Não pensei duas vezes. Tudo combinado, ele me deu o nome do hotel e o horário da entrevista....

Nove da manhã do dia 25 de abri de 1999, esta data não esqueço!

Cheguei no hotel, identifiquei-me e o gerente me mandou subir para um quarto, achei estranho, imaginava uma coletiva. Fui recebida pelo meu colega, entrei no quarto e vi Saramago ajeitando o cabelo no espelho do banheiro com a porta aberta. Fiquei com as pernas bambas.

Ele se virou me pediu desculpas por ainda não estar pronto e disse para sentar no sofá. O Prêmio Nobel me pedindo desculpas por ainda não ter se penteado. Pensei tô sonhando. Acorda Patrícia!


Estava como dizem os portugueses em mangas de camisa, sem paletó, simples. Sentou numa cadeira na minha frente e começou a falar amenidades. Como a entrevista seria ao vivo para a RFI esperamos um pouco até chegar o horário do programa. Eu alí pasma com a simplicidade dele, parecia que estava com meu avô.

A entrevista foi ótima e o encontro mais ainda. Fiquei cerca de duas horas no quarto de hotel com Saramago. Foi uma manhã incrível. Acho que tive uma oportunidade ímpar de conhecer um escritor que havia se transformado em mito cheios de dogmas mas que não passava de um senhor de idade, vivido, inteligente, simples e sentimental....

Naquela entrevista, naquele dia, Saramago disse categoricamente que jamais venderia o direito autoral de qualquer livro seu para o cinema para não sentir o mesmo que o amigo Umberto Eco. Decepção quanto a adaptação de uma obra sua. Anos depois eis aí Ensaio sobre a Cegueira, nas telas. Até Saramago muda de idéia. Pois”, observa Patrícia.

Perspectivas


“Encontrar Saramago mudou um pouco algumas perspectivas da minha vida. Um homem inteligentemente simples e humilde, que respeitou meus vinte e poucos anos, minhas inseguranças e que acreditava que o homem mais sábio que havia conhecido não sabia ler nem escrever. Podia ter sido um filme, mas foi real!”

Nos quatro anos de Bélgica, seu marido terminou o doutorado e Patrícia aprendeu inglês, espanhol, francês e um pouquinho de holandês, como ela mesmo diz “para fazer as compras e cumprimentar os vizinhos” [risos] e melhorou seu currículum de jornalista.

Patrícia se preparando para sair no Galo da Madrugada, considerado o maior bloco de carnaval do mundo

“Conheci pessoas interessantes, lugares maravilhosos, estudei história e geografia in locuo. Aprendi economia com o Embaixador Jório Dauster, que negociou nossa dívida externa na década de 80; minha escola foi com grandes professores, tive muita sorte.

Os diplomatas com os quais trabalhei sempre me deram muitos furos de reportagem. É importante ganhar a confiança das pessoas. Mas pra isso tem que ser um profissional sério. Saber do que está falando e ser fiel as fontes.

“Naquela época meu mundo era outro, era Comissão Européia, Parlamento Europeu, OTAN, almoços na casa de embaixadores, jantares com diplomatas. É preciso manter a humildade para não cair nas malhas finas que esse meio pode te levar: O da arrogância. Pensar sempre: sou apenas uma jornalista sem dinheiro no banco, apenas com amigos importantes” [risos].

Novo retorno


“Quando voltamos para o Brasil, fomos morar no Cassino e me deparei com a dura realidade dos cachorros de rua. Estava desempregada e foquei meu tempo a cuidar do cães doentes da rua. Depois conheci algumas pessoas que lutavam pela mesma causa e fundamos a ONG “SOS Animal” que tinha o objetivo de castrar e colocar os animais a adoção.

Ao mesmo tempo fui fazer mestrado em Porto Alegre. Queria estudar mídias radicais alternativas pesquisadas pelo inglês John Downing. Me dividia entre a PUC e a Unisinos atrás de professores que me dessem o que eu procurava. Fiquei alguns anos pesquisando. Em 2007, nos mudamos para Recife.

Logo que cheguei fui ser pesquisadora do Observatório da Mídia Regional. Mas cheguei a conclusão que ficar pesquisando não é pra mim. Gosto da adrenalina da correria, do deadline o tempo todo. Fiquei um tempo sabático só escrevendo textos, crônicas que eu adoro, muitas publico em sites literários. Então o cinema que na verdade sempre esteve na minha vida, sempre gostei de inventar histórias, personagens, vidas paralelas, voltou à tona e o resto vocês já sabem...

29 de julho de 2010

Paola Magalhães dos Santos:



Texto e fotos-reportagem:
(Publicado no caderno O Peixeiro)
Agradecimento: Hotel Paris

O nome é italiano, porém, as raízes são naturalmente portuguesas e tem tudo a ver com os personagens que ergueram as tradições e todo o patrimônio histórico desta terra.

Aos 19 anos, Paola Magalhães dos Santos é cantora de fado, seguidora da cultura lusitana e atual rainha do Clube Centro Português, além de também ser uma das representantes da etnia em destaque pela Fearg/Fecis, com inauguração oficial nesta quinta-feira, 29 de julho, no Centro Municipal de Eventos.


“Cresci ouvindo e cantarolando os fados e as músicas folclóricas. Quando formamos uma tocata [conjunto típico português sem instrumentos eletrônicos] notaram que minha voz se destacava pelo tom e a facilidade em cantar e foi aí que meu pai colocou-me em aula de técnica vocal para aprimorar o canto”, conta a rio-grandina estudante do curso de Artes Visuais da Furg, sobre sua trajetória artística despertada em 2006.


Neta de portugueses, Paola foi criada ao arredor dos hábitos e costumes lusitanos. Além de rainha do Centro Português, ela dança também no Rancho Folclórico e participou da divulgação da Fearg/Fecis, que neste ano exalta a etnia portuguesa.

Sua presença dentro das feiras será representar o clube em que é rainha, além de receber visitantes, prestando também orientações sobre a cultura.


Paola é filha caçula de Thelmo (acima), pai que acompanha com estima a carreira da menina. Além dela, ele tem mais duas filhas. Todas elas cresceram sob forte orgulho pela cultura portuguesa.

A mais velha, por exemplo, iniciou um relacionamento com um português pela internet, mais precisamente, pela comunidade “Cantoras de Fado” do Orkut” da qual a irmã Paola, faz parte. Foi conhecê-lo e após contínuos “vaisvens”, casou-se em novembro passado.


Paola, por sua vez, também namora e pode futuramente trocar alianças. O jovem por quem está interessada é filho de portugueses. O casal se conheceu no Centro Português e lá participaram de várias atividades.


“Gostamos dos mesmos costumes e assim nasceu um amor”, explica Paola, que sinaliza a ocasião pra lá de sugestiva do começo da união: um almoço comemorativo à Santo Antônio.

O pai coruja torce pelo futuro noivado da caçula. E se a música é capaz de unir fronteiras, o pai tem opinião uníssona ao fado: “Ele não é triste, não é alegre; ele é simplesmente um momento, um conto de vida, que transmite uma história, uma vida”.

Paola Magalhães dos Santos


- Inspiração na cantora fadista, Amália Rodrigues. Por influência do avô que adorava ouvi-la.

- O que mais a encanta na cultura: “Em certas aldeias do país lusitano, ainda se mantém os costumes do inicio do século passado, no modo de vestir e no lidar do cotidiano”.

- Arte: “O que mais me encanta é a arte da faiança e os bordados da Ilha da Madeira. Também as casas de fado que nos oferecem grandes noites bem típicas”.

- Música e instrumentos: “O fado castiço acompanhado pela guitarra e violão cantado por uma pessoa em ambientes pequenos sem aparelhagem eletrônica”.


- Pessoas: “Um povo trabalhador, com muita garra”.

- Admiração: “As pessoas que vieram sem nada para o Brasil, e apenas com vontade de trabalhar construíram verdadeiros patrimônios neste país”.

- Literatura: “Uma das mais ricas da Europa; País de grandes escritores e poetas, que muito influenciaram e ainda influenciam a literatura brasileira, através da história”.


- Lugares: “Um dos que mais gosto é a região de Aveiro, onde se encontra a cidade de Águeda, cidade de meus antepassados”.

- Fados que mais gosta de cantar: “Foi Deus, Casa Portuguesa, Chuva, Estranha Forma de Vida”.

- Hábitos e costumes lusitanos: “Tomar vinho do porto após as refeições; a culinária e a religiosidade; sou devota de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Portugal e o nosso santo lisboeta, Santo Antônio”.


- “Acho que tenho muito também do modo de se expressar, como por exemplo, quando estamos estressados dizemos: ‘Estou perdendo as estribeiras’”.

- Porque as mulheres amam tanto os vestidos portugueses? “Pelos tecidos totalmente artesanais feitos à mão, em tear e bordados personalizados, também feitos à mão”.


>> Rio Grande e a identidade portuguesa: “Temos a pesca artesanal, feiras de horte-frutti em ruas centrais da cidade, a produção de vinho artesanal nas Ilhas da cidade, locais em que mais preservam os hábitos e costumes portugueses; a religiosidade, com procissões como o de Nossa Senhora de Fátima e São Pedro, entre outras e as bancas de portugueses no mercado, com a venda de pescado ao ar livre”, aponta Paola.

>> Preocupação: Na opinião da jovem, os rio-grandinos deveriam ser mais bairristas à sua cultura. “Culpa da globalização”, observam pai e filha.

A preocupação é quanto às perdas às tradições e demais características de nossos colonizadores, seja pelos prédios antigos “que estão sendo modificados de sua arquitetura original”, ou pela deterioração de monumentos, praças e até dos costumes.



Por fim, fala com orgulho que: “Em nosso Clube, mantemos a tradição tanto nos costumes, como na gastronomia, com o slogan Resgatando a cultura de um povo”. Dúvidas de que jovem fará bonito na Fearg/Fecis?!



Fernanda Miki:

Cordialidade, antipatia e diplomacia:
São coisas da vida!


Uma coisa que prezo, e muito, é a gentileza.

Mas não me refiro àquelas regras culturais de etiqueta: abrir a porta para o próximo, puxar a cadeira, devolver o pote com outra guloseima dentro, enviar o presente mesmo não indo à festa….não, não….

Falo da cordialidade gratuita, sorrir para as pessoas na rua, mesmo desconhecidos, retornar o telefonema, o e-mail, mandar um torpedo de boa noite aos amigos.

Essas atitudes, tanto as de etiqueta quanto as últimas, pratico diariamente, por gosto.

Ver alguém sorrindo de volta é impagável e alegra o dia de qualquer um.


E mulheres, não me venham com a história de que puxar a cadeira é coisa de homem porque só esse pensamento é machismo puro, e esperar a atitude é muito pior. É frescura!

Acho que por essas atitudes às vezes sou taxada de efusiva, ou como já me disseram, “chego chegando”. Sou assim, de fazer o bem sem olhar a quem.

Boa coisa é que rótulos não me faltam.


Mas enfim, não comecei a escrever isto para falar de cordialidade e sim de grosseria. Pior do que não ser gentil é ser rude. Não entendo qual o problema em iniciar uma conversa, mesmo que esta vá tomar rumos abrasivos, com um bom dia, como vai?!

Não cobro nem um aperto de mão porque sei que as pessoas têm resistência a contatos físicos quando estão irritadas…risos…

Mais engraçado ainda é quando alguém te trata com indiferença sem motivo aparente.

Muitas vezes acabas sabendo que porque conheces a fulana ou trabalhas com o cicrano, o indivíduo automaticamente não gosta de ti.

Gozado essa forma de união, não?


Mudar essa forma de tratamento quando convém é mais hilário ainda!

“Oi querida, tu trabalhas no lugar tal né? Acho que é de lá que te conheço! Não, é que eu precisava…..” Simplesmente hilário.

Bom, quem nunca sofreu antipatia gratuita ou foi vítima de diplomacia?!

Voltando à cordialidade, porque dela gosto mais.


Não venho por aqui pedir que a humanidade sorria para mim na rua.

Peço somente educação, por que se não sou tratada assim me sinto completamente inútil.

Que não sejam efusivos como eu, mas que pelo menos mostrem indiferença antes de grosseria.

Me deixe com o sorriso trancado entre os lábios, mas não me cause o franzir de sobrancelhas.


O tempo passa, rugas devem ser combatidas desde cedo, diz a minha avó (vendedora de Natura) e quanto aos sorrisos travados, abro-os aos meus amigos, àqueles que também são cordiais comigo.

Crônica publicada no Blog Espelho Periódico de Fernanda Miki


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